Os diferentes caminhos para a paz e resolução de conflitos
Desde projetos com atuação direta nas comunidades até a capacitação de jovens líderes e embaixadores, conheça as iniciativas internacionais do Rotary na busca pela compreensão internacional
Alcançar a paz não é uma tarefa fácil e pode exigir uma atuação em diversas frentes. Uma das áreas de enfoque e missões do Rotary, “Paz e Resolução de Conflitos” também é o tema que guia projetos e iniciativas da instituição no mês de fevereiro. “Esse é o momento em que o rotariano deve dedicar seu tempo e seu esforço para alertar a todos que não podemos, sob hipótese alguma, soltar as nossas mãos. Juntos somos sempre mais fortes e, estamos todos de mãos dadas, buscando a Paz, trabalhando pelo bom entendimento e pela Resolução de Conflitos”, incentiva Anaides Orth, Governadora do Distrito 4730* de Rotary International.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 80 milhões de pessoas estão deslocadas no mundo, como resultado de conflitos, violência e perseguição dos direitos humanos. O Rotary trabalha para lidar e resolver as causas destes conflitos — como pobreza, discriminação, tensões étnicas, falta de acesso à educação e desigualdade social. A instituição realiza ações de capacitação de jovens líderes, implementação de projetos comunitários de saúde e desenvolvimento econômico, mediadores e defensores de processos de consolidação da paz e reconstrução pós-conflitos, entre outros.
Entre estas iniciativas estão o Grupo de Ação do Rotary Pela Paz - formado por rotarianos e para orientar associados e comunidade sobre como trabalhar pela paz no mundo -, projetos para ajudar pessoas refugiadas a restabelecerem suas vidas e programas de intercâmbio e/ou educação, que ajudam a expandir o conhecimento sobre diferentes culturas e desenvolvem habilidades de resolução de conflitos — por exemplo, o programa Bolsas Rotary Pela Paz.
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Bolsas Rotary Pela Paz
Desde que foram fundados, os Centros Rotary Pela Paz treinaram mais de 1.300 bolsistas no mundo inteiro para “se tornarem catalisadores da paz em suas carreiras”. Os integrantes do programa Bolsas Rotary Pela Paz participam de um treinamento acadêmico intensivo, com aplicação prática do aprendizado e networking. O programa oferece duas modalidades — Mestrado e Aperfeiçoamento Profissional — e é destinado para quem quer seguir carreira em relações internacionais, paz e/ou resolução de conflitos em nível local e mundial. “É possível trabalhar a paz de forma bem abrangente, de maneiras muito diferentes. Cada um dos cursos e universidades parceiras tem um nicho e linha de pesquisa bem definida, os candidatos selecionam aquela que mais se enquadra na sua área para expandir suas habilidades. Podemos ter alguém que trabalhe com saúde, violência da mulher, segurança nacional, entre outros”, explica Anna Jordão, responsável pelo programa “Bolsas Rotary Pela Paz” na Fundação Rotária do Distrito 4730.
A bolsa de estudos também cobre integralmente a mensalidade e despesas de moradia. Todos os candidatos devem: ser fluentes em inglês; demonstrar sério compromisso com a paz e compreensão mundial, comprovado por meio de atividades de prestação de serviços comunitários e/ou realizações pessoais, acadêmicas e profissionais; ter excelentes habilidades de liderança; entre outras exigências. Caso não sejam aprovados durante o primeiro processo seletivo, os candidatos podem tentar participar do programa novamente.
As Bolsas Rotary Pela Paz já estão com as inscrições abertas para este ano! Interessados podem se inscrever até o dia 15 de maio de 2021, para mais informações basta acessar o link bit.ly/bolsa-pela-paz.
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Embaixadores pela Paz
O objetivo central do programa Bolsas Rotary Pela Paz é formar e capacitar promotores e embaixadores da paz ao redor do mundo. Intercambista do Distrito 4730, Cinthia Gonçalvez afirmou, durante uma palestra em 2019, que “não é possível falar de paz sem mencionar conflito”. Gonçalvez foi bolsista do programa de Mestrado em Violência Política e Terrorismo em 2017, na Universidade de Bradford, Inglaterra.
Acolhida pelo Distrito 1011, Cinthia relatou que teve a experiência enriquecida pela presença de 130 estudantes de 50 nacionalidades diferentes no programa de mestrado — sendo que nove deles eram também bolsistas do Rotary pela Paz. “Os bolsistas Rotary tiveram a disposição: uma equipe de professores super qualificada; estrutura de estudos com bibliotecas, computadores e salas de reuniões acessíveis 24 horas por dia; além de todo o suporte do Centro Rotary pela Paz, com organização de viagens e atividades extracurriculares para aplicação prática do conhecimento que era adquirido na sala de aula”, descreveu.
Como objeto de estudo, Gonçalvez queria a entender a fundo como outras nações estavam lidando com questões de violência e como o policiamento poderia contribuir para a segurança em diversos contextos. Cinthia estava especialmente interessada nas relações entre polícia e comunidade, principalmente porque o Reino Unido — local de nascimento do policiamento comunitário — é considerado o lugar que melhor integrou os migrantes e os nacionais, a polícia e a comunidade, atuando acima de qualquer preconceito ou ideologia. A historiadora realizou estágios com a polícia de West Yorkshire e teve experiências de campo em diversos países. As experiências na Etiópia, em Israel e na Palestina resultaram em uma pesquisa qualitativa que embasou a dissertação da bolsista sobre a polícia comunitária etíope.
Neste ano, a equipe de comunicação do Distrito 4730 decidiu conversar com Cinthia novamente, para saber quais aprendizados do programa Bolsas Rotary Pela Paz permanecem presentes em sua vida e como estes conhecimentos auxiliam em projetos pessoais e profissionais na busca pela Paz e Resolução de Conflitos. Confira abaixo o resultado desta entrevista:
D4730: Quais foram seus principais aprendizados durante o intercâmbio para a Inglaterra?
Cinthia: Os aprendizados certamente foram múltiplos. A começar pelo nível pessoal, aprendi a superar desafios que parecem simples, mas que foram grandes obstáculos desde o início, tais como: estudar numa universidade estrangeira, em uma língua não materna; adaptar-me aos hábitos e culturas de países diferentes em um curto espaço de tempo; ser uma estudante/pesquisadora, mulher, sozinha, em regiões de guerras e conflitos em andamento e em que eu não sabia falar e nem ler o idioma local... Tudo isso me fez crescer muito e em pouco tempo. É algo que levo para a vida toda e que me faz pensar que não há desafio que eu não possa superar.
Em termos profissionais, foi particularmente interessante observar a relação da população inglesa com a segurança pública, em especial, com a polícia comunitária. O senso de coletividade, de uma segurança pública sistêmica, da qual todos (do Estado aos cidadãos) fazem parte e pela qual todos são responsáveis, certamente me inspirou a buscar soluções não-violentas para os meus desafios cotidianos como policial civil aqui no Paraná.
Por fim, a nível acadêmico, compreendi — com professores brilhantes — que as raízes dos mais diversos conflitos (alguns dos quais presenciei durante minha experiência de campo) encontram-se ligadas a fenômenos conexos, tais como: desigualdade, marginalização, desastres ambientais, e o “paradigma de controle” — das chamadas “forças imperialistas” sobre os países em desenvolvimento. Podemos afirmar, de forma simplificada, que essa cadeia está na base de violências das quais ouvimos falar nos jornais todos os dias – o terrorismo, o narcotráfico, as crises de refugiados, os crimes contra a vida e o patrimônio nos grandes centros urbanos, entre outras – e compreendê-la (bem como compreender a nossa responsabilidade como cidadão do mundo, como parte de uma comunidade que necessita de um senso de coletividade) é passo fundamental para mudar essas realidades.
D4730: No seu retorno ao Brasil, você sentiu mudanças geradas por esses aprendizados na sua vida pessoal, profissional e/ou acadêmica? Se sim, como eles influenciaram essas mudanças?
Cinthia: Sem dúvidas, minha forma de compreender a segurança pública se transformou completamente, ainda mais no tocante a um cenário tão peculiar em termos de violência quanto o Brasil. Contudo, o maior desafio tem sido justamente o de encontrar acolhimento para essa visão, uma vez que muitos ainda insistem em encarar os problemas de violência no Brasil sob a perspectiva de “guerra” (ex: “guerra contra o tráfico”), quando, na verdade, guerras são formas de violência muito diferentes. Tenho feito de minha missão diária a abordagem da violência sob o prisma estrutural, estratégico, em que as polícias devem buscar, juntamente com os demais poderes e com a população, soluções não violentas para a prevenção de crimes e de conflitos. Na prática, isso envolve uma mudança metodológica não apenas do policiamento em nosso país, como também de políticas públicas ligadas à segurança, à educação, ao saneamento básico, à saúde, etc. E, obviamente, tais transformações levam tempo.
D4730: Em 2019, você comentou que ao retornar foi convidada a participar de alguns projetos como a formação dos policiais da Escola Superior de Polícia Civil, o programa Peace Ambassadors (no Instituto Peace Economics em Sydney, Austrália) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Como foi (ou se elas ainda estão acontecendo, como é) participar destas iniciativas?
Cinthia: Eu terminei o programa do Institute for Economics and Peace (IEP) ano passado. Apesar de ter acontecido à distância, foi uma formação interessantíssima, pois me possibilitou não apenas mensurar os custos absurdos dos conflitos no mundo, como também ter um panorama dos custos baixíssimos da Paz. Além disso, o curso me proporcionou uma visão mais crítica dos critérios para medir tais índices — por exemplo, o IEP não leva em conta a violência contra mulheres, algo que é imperativo que seja contabilizado no Brasil. Os frutos deste aprendizado deverão surgir em 2021, pois o IEP acabou de nomear um representante no Brasil para unir os Peace Ambassadors locais em projetos ligados às suas respectivas áreas de atuação. No meu caso, tive um convite para desenvolver estudos acerca do financiamento do terrorismo nas regiões de fronteira com o Brasil e apresentar novas metodologias de combate a este crime às forças policiais.
Quanto ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, continuo como membro contribuinte e tenho sido uma das colaboradoras de suas diversas pesquisas no estado do Paraná. Já acerca da formação de policiais civis, ela ainda está suspensa pois não tivemos novos concursos desde o meu retorno. Contudo, há perspectivas para que aspirantes ingressem na Polícia Civil do Paraná ainda em 2021, então, aguardo ansiosamente pela oportunidade de contribuir com a formação deles.
Outra novidade é o magistério, pois tenho recebido propostas de instituições de nível superior para lecionar em graduações e pós-graduações, algo que estou esperançosa que aconteça em 2021.
D4730: Atualmente, você participa ou executa um projeto relacionado a sua experiência no programa Bolsas Rotary Pela Paz? Se sim, poderia compartilhar sobre como o projeto funciona e qual seu objetivo principal?
Cinthia: Logo que retornei da Inglaterra, fui transferida do Grupo TIGRE (especializado em crimes de extorsão mediante sequestro) para a Agência de Inteligência da Polícia Civil do estado do Paraná. Pela natureza do trabalho, infelizmente não posso compartilhar detalhes da atuação nesta nova unidade, mas, de forma geral, minhas funções têm sido identificar, avaliar e acompanhar ameaças reais ou potenciais na esfera de Segurança Pública, produzindo e salvaguardando conhecimentos necessários a subsidiar a tomada de decisões em níveis políticos e estratégicos; além de subsidiar a produção de provas nas investigações policiais conduzidas pelo nível operacional, e de subsidiar ações para prever, prevenir, neutralizar e reprimir atos criminosos de qualquer natureza que atente à ordem pública, à incolumidade das pessoas e do patrimônio. Meu principal objetivo tem sido o foco na prevenção e na resolução não-violenta de conflitos, colocando em prática as metodologias obtidas através dos estudos, das pesquisas e dos estágios no programa Bolsas Rotary pela Paz.
D4730: Gostaria de acrescentar algo?
Cinthia: Deixo meus mais profundos agradecimentos a todos os que me incentivaram a concorrer às Bolsas Rotary pela Paz, a todos os amigos do Distrito 4730 que acreditaram em mim e a todos que fazem parte deste projeto tão transformador. Espero poder retribuir à altura, em esforços igualmente transformadores, a toda a sociedade através do meu trabalho.
Para conhecer mais sobre a experiência de Cinthia Gonçalvez no programa Bolsas Rotary Pela Paz, leia também: Intercâmbios do Rotary geram embaixadores pela paz
Confira também:
Saiba mais sobre as Bolsas Rotary pela Paz | Meu Rotary
Guia de inscrição à Bolsa Rotary pela Paz | Meu Rotary
Teste de elegibilidade - Bolsas Rotary pela Paz | Meu Rotary
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* Distrito 4730 é a área administrativa do Rotary International que compreende Curitiba, Região Metropolitana, Litoral e Campos Gerais do Paraná.
** Devido a pandemia, as viagens de todas as modalidades de intercâmbio do Rotary estão temporariamente paralisadas.






