Rotarianos projetam primeiro Centro de Tratamento para Síndrome Pós-pólio no Paraná
Proposta de iniciativa financiada por subsídio global reúne associados do Rotary, sobreviventes da pólio, voluntários e instituições públicas da área de saúde
Erradicada do Brasil em 1994, a poliomielite deixou diversas sequelas para aqueles que contraíram a doença antes desse marco histórico. Em 2010, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou como sobreviventes podem desenvolver sequelas inclusive anos após contrair a poliomielite, reconhecendo a “síndrome pós-pólio” na Classificação Internacional de Doenças. No Paraná, rotarianos, voluntários e um centro de reabilitação do Complexo do Hospital do Trabalhador uniram forças para idealizar um projeto de tratamento para a síndrome pós-pólio.
A iniciativa é inédita no Paraná e tem potencial para se tornar referência em tratamento para síndrome pós-pólio no sul do Brasil. No total, devem ser investidos 34 mil dólares rotários para a execução do projeto. “Quando nos deparamos com os sobreviventes da pólio, vemos como é necessária uma atuação do Rotary além do combate à doença. Essas pessoas, que não foram alcançadas pela vacina, também precisam de apoio e tratamento”, aponta Cláudia Brüning, rotariana, coordenadora e idealizadora do projeto.
O projeto será executado no Centro Hospitalar de Reabilitação Ana Carolina Moura Xavier, em Curitiba. O espaço, incorporado ao Complexo do Hospital do Trabalhador, será utilizado para o diagnóstico e tratamento da síndrome pós-pólio. Segundo Cláudia, como não existe uma estatística oficial dos sobreviventes da poliomielite no Brasil, o atendimento de pacientes será feito por encaminhamento das Unidades Básicas de Saúde. Após avaliação, os pacientes devem começar o tratamento indicado, passando por acompanhamento de diferentes profissionais de saúde. “O diagnóstico é feito pela exclusão de outras causas possíveis. Se o resultado for positivo, o tratamento consiste em evitar a exaustão do neurônio remanescente, o que não foi prejudicado pela poliomielite”, explica Brüning.
Idealização do projeto
O primeiro piloto do projeto foi realizado em 2018, oferecendo sessões de fisioterapia e tratamento psicológico para cinco pacientes com síndrome pós-pólio. Para expandir a iniciativa, Cláudia Brüning e os associados do Rotary Club de Curitiba Champagnat (Distrito 4730*) elaboraram um pedido de subsídio global para a Fundação Rotária**. A proposta teve como parceiros iniciais a Associação e Grupo de Apoio à Síndrome Pós-pólio do Paraná (AGASPP-PR) e o centro de reabilitação Ana Carolina Moura Xavier. O projeto para tratamento dessa doença rara também ganhou o apoio de dez Rotary Clubs em Curitiba, um parceiro de São Paulo e dois parceiros internacionais (Itália e México).
Após aprovação pela Fundação Rotária de Rotary International***, o projeto para síndrome pós-pólio deve começar a ser executado. A iniciativa espera atender 250 pacientes adultos com a síndrome e/ou outras doenças raras nos próximos anos. “Além da síndrome pós-pólio se desenvolver em adultos que sobreviveram à doença, escolhemos essa faixa etária porque em geral os adultos com doenças raras não têm atendimento especializado. Crianças costumam receber [tratamento] até os 18 anos, mas depois ficam sem apoio”, relata Jean Cordeiro, consultor do programa de inclusão da Chevrolet Valesul e um dos diretores da Associação e Grupo de Apoio à Síndrome Pós-pólio do Paraná (AGASPP-PR).
Tratamento para síndrome pós-pólio
Jean também é um dos sobreviventes da poliomielite e contribuiu para a elaboração do projeto de tratamento com base em uma experiência pessoal. Em 2010, Cordeiro participou do primeiro tratamento para síndrome pós-pólio criado no Brasil, por um hospital na capital de São Paulo. “Era algo inédito. Frequentei algumas vezes [o hospital], mas era muito caro e difícil me locomover até São Paulo para o tratamento. Foi quando conheci a AGASPP e descobri a extensão do problema de não existir um tratamento local para os sobreviventes da pólio”, conta.
Quando uma pessoa é infectada pelo vírus da poliomielite, ele ataca e destrói o neurônio motor no cérebro, provocando diversas sequelas — como a paralisia infantil — ou levando o paciente à morte. Os neurônios que sobrevivem a este processo assumem as funções daqueles que foram destruídos. A síndrome pós-pólio consiste na sobrecarga e exaustão dos neurônios restantes, que param de executar suas funções aos poucos.
Nem todos os sobreviventes da poliomielite desenvolvem o quadro, mas aqueles que são diagnosticados precisam de tratamento contínuo. A síndrome pós-pólio é uma doença progressiva, degenerativa e não tem cura. “Hoje, nós temos na associação pessoas que desenvolveram quadro muito agudo, com dores crônicas, necessidade de cirurgias para mexer nos nervos ou que passaram a andar em cadeira de rodas”, explica o diretor da AGASPP.
O projeto paranaense para tratar a síndrome pós-pólio irá oferecer atendimento nas áreas de: terapia ocupacional, fisioterapia, psicologia, fonoaudiologia, entre outras. As outras doenças raras atendidas pela iniciativa serão: Distrofia Muscular de Duchenne / Becker, Atrofia Muscular Espinhal (AME), Mucopolissacaridose, Doença de Gauche, Neuropatias hereditárias, Adrenoleucodistrofia, etc. “Também queremos divulgar mais informações sobre a síndrome pós-pólio através desse projeto. Como é uma doença pouco conhecida, reforçamos que profissionais da saúde procurem a AGASPP e entrem em contato conosco para que possamos enviar orientações”, ressalta Jean.
Luta do Rotary contra a poliomielite
O combate à poliomielite é uma das principais causas do Rotary desde 1988, com o lançamento da campanha End Polio Now, e falta pouco para a doença ser eliminada no mundo inteiro. Apenas o Afeganistão e Paquistão ainda apresentam casos da pólio. Apesar disso, os baixos índices de imunização trazem à tona o risco de crianças voltarem a se contaminar pela doença.
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Para Cordeiro, essa é uma situação gravíssima, porque “enquanto não existe nenhum ponto negativo sobre as vacinas, a pólio tem potencial letal e, quando os pacientes sobrevivem, ficam com sequelas para a vida”. O diretor da AGASPP lembra que a luta contra a poliomielite é histórica e existem várias informações disponíveis para consulta sobre os benefícios da vacinação. “Quem ama, vacina. Se você quer provar que ama seu filho, leve ele para ser vacinado”, incentiva Jean.
Campanha Nacional de Multivacinação | Ministério da Saúde
Data: do dia 01 até o dia 29 de outubro de 2020, com mobilização nacional reforçada no sábado (02 de outubro);
Local e horário: varia de acordo com a Unidade de Saúde Básica (UBS) de cada região, para conferir a unidade mais próxima no estado do Paraná basta acessar pac.gov.br/infraestrutura-social-e-urbana/ubs-unidade-basica-de-saude/pr;
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* O Distrito 4730 é composto pela região de Curitiba e Região Metropolitana, Litoral e Campos Gerais do Estado do Paraná.
** A Fundação Rotária (TRF) é o braço filantrópico do Rotary, criado para fins humanitários e educacionais, que lidera esforços de acabar com a pólio e promover a paz. Rotarianos e amigos do Rotary apoiam o trabalho da Fundação através de contribuições voluntárias. A Fundação trabalha para acabar com a pólio, financia projetos através de subsídios e assume outras iniciativas globais.
*** Um projeto de subsídio global deve passar por várias fases antes da execução final. No caso da iniciativa para tratamento de síndrome pós-pólio, o projeto está em fase de aprovação pela Fundação Rotária. Após esta etapa, acontece a liberação e transferência de recursos para que, a partir disso, o projeto possa ser executado.






