Intercâmbios do Rotary geram embaixadores pela paz

Um dos destaques do Rotary International são os programas de intercâmbio. No Distrito 4730, são promovidos ao todo seis programas — Novas Gerações (NGSE); curta (modalidades camp e familía-família) e longa-duração; intercâmbio da amizade; e Bolsas Rotary pela Paz — que utilizam diferentes critérios e métodos de participação, mas com um mesmo objetivo: gerar embaixadores pela paz.

 

Rotary pela Paz

Cinthia Gonçalvez foi bolsista Rotary pela Paz entre setembro de 2017 e dezembro de 2018, cursando o programa de mestrado em Violência Política e Terrorismo na Universidade de Bradford, Inglaterra. Investigadora da Polícia Civil do Paraná, Cinthia conta como seu caminho até chegar ao mestrado pode parecer uma “subversão dos padrões esperados nos dias de hoje”, onde “discursos dividem o mundo em preto e branco, bom e mau, heróis e vilões”. “Diante dessa realidade, pode parecer contraditório: uma pessoa formada em História, que virou policial, foi estudar terrorismo e violência, mas com uma bolsa pela paz”, brinca.

Gonçalvez afirma que, também neste cenário, a paz é cinza. Segundo a ex-bolsista, mesmo depois de um ano e meio estudando a paz como disciplina, não é possível “falar sobre a paz sem mencionar conflito”.

 

Chegada a Bradford

Localizada no norte da Inglaterra, a cidade de Bradford faz parte do distrito metropolitano de West Yorkshire. Famosa por sua indústria têxtil e uma das mais cosmopolitas do país, a cidade abriga o Departamento de Estudos da Paz e Conflitos da Universidade de Bradford, criado em 1973. O mais antigo e um dos mais prestigiados do mundo, o departamento surgiu pelo fim dos armamentos nucleares no mundo, durante movimentos de iniciativa das Nações Unidas e de outras Organizações Não-Governamentais (ONGs) — como o próprio Rotary. “Vocês podem imaginar, então, a imensa satisfação de uma historiadora como eu de estudar num lugar como esse”, conta Gonçalvez.

Acolhida pelo Distrito 1011, Cinthia relata que teve a experiência enriquecida pela presença de 130 estudantes de 50 nacionalidades diferentes no programa de mestrado — sendo que nove deles eram também bolsistas Rotary pela Paz. “Os bolsistas Rotary tiveram a disposição: uma equipe de professores super qualificada; estrutura de estudos com bibliotecas, computadores e salas de reuniões acessíveis 24 horas por dia; além de todo o suporte do Centro Rotary pela Paz, com organização de viagens e atividades extracurriculares para aplicação prática do conhecimento que era adquirido na sala de aula”, descreve.

 

Mestrado em Violência Política e Terrorismo

O programa de mestrado em Violência Política e Terrorismo escolhido por Cinthia era composto por sete módulos, o último sendo dedicado para a pesquisa e dissertação que conclui o curso. 

Como objeto de estudo, Gonçalvez queria a entender a fundo como outras nações estavam lidando com questões de violência e como o policiamento poderia contribuir para a segurança em diversos contextos. Cinthia estava especialmente interessada nas relações entre polícia e comunidade, principalmente porque o Reino Unido — local de nascimento do policiamento comunitário — é considerado o lugar que melhor integrou os migrantes e os nacionais, a polícia e a comunidade, atuando acima de qualquer preconceito ou ideologia.

A historiadora realizou estágios com a polícia de West Yorkshire — fazendo rondas e observando o patrulhamento da cidade, com uma polícia “desarmada e respeitada pela mera função de servir a lei” —  e acompanhou o trabalho de analistas, que transformam ocorrências policiais em informações para subsidiar o serviço de segurança pública na região. Cinthia também estudou o trabalho da Polícia Comunitária, integrada à comunidade com foco na prevenção da violência e do recrutamento por parte de grupos extremistas.

 

Experiência de campo

Pensando nas diferentes abordagens sobre segurança pública e policiamento, Cinthia decidiu realizar uma experiência de campo em dois países diferentes. Como pesquisadora no Institute for Peace and Security Studies da Universidade de Adis Abeba, Gonçalvez coletou dados sobre a implementação do policiamento comunitário em países subdesenvolvidos para ações de contra-terrorismo. 

“Tive a oportunidade de visitar setores do governo, ONGs, conversar com membros da sociedade civil e até de conhecer a base de treinamento das forças de paz da ONU na Etiópia, que atuam na fronteira com a Somália. Durante momentos históricos, testemunhei manifestações populares, seguidas da renúncia do primeiro-ministro e da instauração de um estado de emergência que retirou automaticamente os direitos constitucionais dos cidadãos e espalhou uma atmosfera de apreensão por toda parte”, conta.

De acordo com a ex-bolsista, esses eventos a fizeram escolher a polícia comunitária etíope como estudo de caso para a dissertação. “Eu queria compreender como um país em desenvolvimento, com o estado democrático de direito funcionando só no papel, teria conseguido — ou falhado — em implementar o modelo inglês de policiamento comunitário e qual exemplo ele poderia dar para o Brasil e para o mundo”, explica. 

Na sequência, em Israel, Gonçalvez participou de um treinamento sobre as transformações políticas e de segurança por consequência da Primavera Árabe e sobre os conflitos entre Israel e Palestina. “Ao pegarmos estrada em direção aos territórios ocupados militarmente, não houve como falar em policiamento — principalmente comunitário — mas sim em verdadeiro cenário de guerra”, relata.

Cinthia e o grupo de estudantes com que estava precisaram colocar em prática habilidades de resolução de conflitos em uma situação nos arredores de Jerusalém. O exército israelense invadiu uma organização ONG, com a ordem de demolir uma casa onde o grupo abrigava cerca de 50 crianças para atividades culturais. Conhecido como Centro Palestino de Não-Violência, o local reúne famílias de agricultores israelenses e palestinos, que vivem em um “exemplo único de paz e cooperação na área Palestina”.

“Naquele exato momento foi pessoalmente chocante e enriquecedor para mim, porque pela primeira vez eu estava do outro lado do gatilho. Pela primeira vez, eu tive que pensar em que tipo de policial eu gostaria — ou melhor, eu não gostaria — de ser”, conta Cinthia Gonçalvez.

 

“Uma experiência incrível, que mudou minha vida”

Cerca de seis meses após retornar do Intercâmbio Rotary Pela Paz, Cinthia Gonçalvez define a experiência como algo “incrível, que mudou a minha vida”.  As experiências na Etiópia, em Israel e na Palestina resultaram em uma pesquisa qualitativa que embasou a dissertação da bolsista. Ao final, a dissertação foi requisitada pelo chefe da Polícia Federal da Etiópia para auxiliar nos estudos de segurança pública no país.

De volta ao Brasil, Cinthia está trabalhando em um projeto para formação dos policiais da Escola Superior de Polícia Civil. O treinamento é baseado  no policiamento comunitário aplicado a inteligência de contraterrorismo britânica. “O policial tem que aprender a defender e a requerer os seus próprios direitos humanos. Entendendo-se como parte da sociedade que ajuda a proteger, o policial quebrará o ciclo de desconfiança que a população tem e se tornará um aliado na prevenção da violência, em níveis micro e macro no nosso país”, explica.

Gonçalvez relatou também que continua o andamento da formação acadêmica, através de um  convite que recebeu pela Fundação Rotária para participar do programa Peace Embassadors, no instituto Peace Economics em Sydney, Austrália. Parceira do Rotary, a organização internacional mede os níveis de paz no mundo, mostrando alternativas pacíficas e como elas são economicamente mais viáveis do que as alternativas bélicas. Cinthia também foi convidada a fazer parte do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma das organizações “mais atuantes no debate, na articulação e na cooperação técnica da segurança pública no Brasil, através de parcerias com a Fundação Getúlio Vargas e com o Instituto Datafolha”. 

 

“Agora é o momento de colocar em prática todo conhecimento que essa oportunidade me proporcionou. Eu tive contato com outros programas internacionais e igualmente importantes na área de paz e resolução de conflitos, mas posso afirmar que as bolsas Rotary pela Paz são o programa mais generoso e sem dúvidas um dos mais completos na formação tanto acadêmica, quanto profissional e humana do bolsista. Portanto, a minha missão agora é retribuir em forma de dedicação incansável a minha sociedade. E missão dada, meus amigos, é missão cumprida.”

- Discurso de Cinthia Gonçalvez, ex-bolsista do Distrito 4730 no programa “Bolsas Rotary pela Paz”

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