Carta a um ex-rotariano: é hora de voltar
Mensagem para o mês de setembro do do Diretor de Rotary International 2019-21, Mário César Camargo
Desconheço as razões da sua saída. Talvez, arrogantemente, nem lhe tenham perguntado os motivos para sua partida. Ou, ainda pior, nem tenham notado sua ausência. Várias reuniões depois, é como se você nunca tivesse frequentado seu clube, dedicado tanto tempo aos programas e projetos, suportado infindáveis horas de protocolo e discursos.
Alguns valeram a pena. Outros, para ser polido, deveriam ter sido melhor escolhidos. Você não foi treinado, não recebeu instrução, mal conheceu o Rotary depois de três anos. Talvez você não saiba, mas 62% de nossos companheiros nos abandonam antes de completar o triênio. Nem tomam conhecimento da organização, mas saem pela porta dos fundos, maldizendo o esforço perdido e a organização que nunca o enxergou.
Quiçá você tenha sido relegado à “geladeira”, à mesa longínqua da presidência, nunca assimilada por nenhuma das famosas “panelas” do clube. Ou ainda nunca tenha sido convidado a engajar-se num projeto do clube, promovendo conexão com os companheiros, e identidade com os propósitos. Afinal, para somente jantar, há cardápios melhores do que o do Rotary.
Provavelmente você é parte do exército de 10.934 rotarianos que fugiram do Rotary em 2019-2020, somente na América do Sul. Supreendentemente, entraram 10.642, um comprovante da atratividade da instituição para potenciais membros. Mas, dentro da teoria da porta giratória, seu clube foi incapaz de reter você, e no fim da gestão, o Rotary no continente sul-americano perdeu 292 companheiros líquido. Por mais denodo demonstrado pelos governadores, fundando clubes, com grande fanfarra e acolhida, você foi olvidado, e partiu discretamente pelos fundos.
Perdemos 0,4% do quadro associativo num ano. Em escala global, a perda foi maior, líquida de 12.333 rotarianos, ou 1% do número total de 1,185 milhão de associados.
Mas, em termos de rotatividade, perdemos 14,6% do nosso exército do bem, contra 10,7% no mundo. Ou seja, graças à saída de companheiros como você, rodamos nosso quadro inteiro a cada sete anos no Brasil e América do Sul, contra 10 anos para o mundo.
Imagine você uma empresa que perca todo o seu quadro de colaboradores a cada sete anos. Esforço de prospecção, entrevista, admissão, instrução, capacitação, viagens, horas investidas. Tudo pelo ralo.
Provavelmente você esteja num daqueles clubes que “racham” no cenário político, porque os dirigentes deixam envolver a marca Rotary em disputas partidárias. Esquecem que o homem é um ser político - e o Rotary também o é -, mas nunca partidário. Como organização, não pode e nunca tomará lado na equação. Nosso foco é no desenvolvimento de um mundo mais igualitário, mais diverso, mais justo, mais solidário. Seu clube conseguiu praticar esses valores enquanto você frequentava as reuniões?
Ou então pertenceu a um clube que abomina o crescimento , porque os atuais rotarianos consideram o tamanho do clube “ideal”. Esquecem que o relógio do tempo, inexorável, trabalha contra eles, e que estagnar não significa parar, significa morrer. Mas por que admitir jovens, mulheres, outras raças, religiões, se nosso “clima” é tão fraterno? Pensando assim, brevemente reunir-se-ão ao Rotary Club do Paraíso, comandado pelo Paul Harris em pessoa. Mas, no processo , condenarão seus clubes ao mesmo destino.
O Rotary está mudando. Com velocidade de transatlântico, não de lancha, mas ainda assim em correção de trajetória. Você poderá juntar-se a um clube de reuniões virtuais – ainda que na pandemia todos sejam forçados a esse modelo, com aprendizado positivo -, um clube que tenha uma entidade humanitária como foco. Ou um clube baseado numa empresa, com executivos revezando-se nas reuniões. Um clube na universidade, com o corpo docente.
A flexibilidade e a inovação são valores incorporados ao planejamento estratégico. Não é contra a tradição, da qual nos orgulhamos, mas nos permitirá melhor adaptação aos novos desafios. A Rolls Royce é tradicionalíssima, mas seus modelos incorporam hoje todas as modernas tecnologias de um auto do século XXI, com os valores de perfeição que a geraram.
O mundo mudou, principalmente nos últimos anos, e particularmente nos últimos meses. Padrões novos de trabalho, reuniões, profissões, ameaças, oportunidades, surgem cotidianamente. O Rotary sobreviverá graças à sua capacidade de adaptar-se às essas novas realidades.
E você, ex-companheiro, está convidado a retornar. Talvez ao seu clube, quiçá a outro. O Rotary continua a conectar o mundo, mais do que nunca, e a abrir oportunidades. É hora de você voltar.






